O Megalitismo

Os mais antigos vestígios da ocupação na região da Beira Alta, de acordo com a informação hoje disponível, parecem remontar aos finais do VI / inícios do V milénios B. P. (antes do presente), o que parece corresponder ao início do fenómeno megalítico na região, no que poderíamos considerar um Neolítico Médio / Final.

Os monumentos megalíticos eram sepulturas colectivas, construídas com grandes monólitos de pedra (esteios), com os quais se constituíam câmaras simples ou com um corredor anexo. Estas estruturas eram normalmente envolvida por anéis de pedra e terra (contrafortes e tumulus), que proporcionavam ao monumento um aspecto de pequena colina (mamoa).

No território hoje correspondente ao concelho de Fornos de Algodres existem, conhecidos actualmente, dois monumentos megalíticos com construção e primeiras utilizações que remontarão a um monumento Neolítico, demonstrando os materiais recolhidos a existência de reutilizações durante a Idade do Cobre (V milénio B. P.).

Dólmen de Corgas de Matança

Freguesia: Matança Sítio: Corgas Coord: 250.775/411.650 GAUSS C.M.P., fl.180 Alt. 650m

Situa-se cerca de 300m a Norte da estrada municipal que vai de Fornos de Algodres à povoação de matança, tendo acesso por um caminho de terra batida que entronca naquela via a 1500m da referida povoação. Actualmente, após trabalhos de restauro, o caminho encontra-se sinalizado com uma placa indicando o monumento.

Com referências que datam do século XVIII, este monumento sofreu a sua primeira intervenção de cariz científico nos finais do século XIX, realizada por Leite de Vasconcelos, que ali recolheu alguns materiais, actualmente depositados no Museu Nacional de Arqueologia. Merecendo referências de vários autores ao longo do nosso século, este monumento arqueológico só recentemente viria a ser alvo de outra intervenção, esta com intenção de o restaurar e valorizar. Tal acção foi levada a cabo pelo Serviço Regional da Zona Centro do então IPPC, no âmbito do seu programa de Valorização do Património Megalítico (Cruz et al., 1990), com o apoio da Câmara Municipal de Fornos de Algodres.

Trata-se de um dólmen de câmara poligonal constituída por 9 esteios sem corredor. Dois dos esteios apresentam insculturas. Violado ao longo dos tempos, este monumento proporcionou materiais arqueológicos, dos quais se destacam 1 geométrico em sílex, 2 pontas de seta igualmente em sílex, 1 conta de colar em anidrite, 1 ídolo de azeviche, 1 enxó de pedra polida e alguns fragmentos de cerâmica, dois dos quais decorados com incisões em espinha. A grande maioria destes materiais traduzirá uma ocupação datável da Idade do Cobre (V milénio B. P.), embora os mesmos não reflictam necessariamente a época de construção do monumento, que poderá ser um pouco mais antiga, remontando aos finais do VI, princípios do V milénio B. P. (Neolítico).

Casa da Orca de Cortiçô

Freguesia: Cortiçô Sítio: Casal Coord: 253.075/411.550 GAUSS , C.M.P., fl. 180 Alt 680m

Localiza-se a cerca de 500m da estrada municipal que, saindo de Fornos, se dirige para o cruzamento de Queiriz. Tem acesso por um caminho de terra batida que emboca à esquerda daquela estrada a cerca de 1750m do cruzamento para Cortiçô. Actualmente, encontra-se sinalizado com uma placa.

Trata-se de um dólmen de 9 esteios, de câmara poligonal, apresentando um corredor relativamente pequeno. Tal como o da Matança, este monumento foi recentemente restaurado no âmbito do programa de Valorização do Património Megalítico, do IPPAAR, com o apoio da Câmara Municipal.>br>
Alguns dos esteios apresentam pinturas (SHEE, 1981), hoje já muito erodidas. Existem alguns materiais ali recolhidos no Museu Nacional de Arqueologia, destacando-se um instrumento de pedra polida e três pontas de seta. A intervenção de restauro permitiu a recolha de mais materiais que, contudo, não se encontram ainda publicados.

Tal impede que se possa avançar, para já, com uma cronologia segura para a sua construção e período de utilização que, a julgar pela tipologia das pontas de seta, terá atingido a Idade do Cobre. O povoamento durante a Idade do Cobre (Calcolítico)

O período Calcolítico ocupa globalmente a segunda metade do V e inícios do IV milénio B. P.. Caracteriza-se por uma intensificação das relações sociais e económicas, pelo crescimento e desenvolvimento de contactos a longa distância, por novas atitudes face à prática do poder traduzidas em sociedades em estado embrionário de diferenciação e hierarquização social.

Estas novas sociedades, cujo o grau de complexidade pode ser bastante variado, portadoras de uma utencilagem material e tecnológica mais evoluída, da qual a metalurgia do cobre (nem sempre presente) é um dos expoentes máximos, adoptaram estratégias de povoamento diversificadas. Contudo, de uma maneira geral, os povoados assumem agora um papel mais central na vida material e espiritual daquelas populações. Castro de Santiago

Freguesia: Figueiró da Granja Sítio: Crasto Coord: 255.075/408.875 GAUSS C.M.P., fl. 191, Alt. 612m

Localiza-se no topo do cabeço do Castro, que tem o topónimo de Santiago. O acesso faz-se por Vila Chã, indo pela estrada de terra batida que liga aquela povoação à da Muxagata, virando no primeiro caminho à direita, até se chegar ao campo de futebol. A partir daí, o percurso faz-se a pé até ao topo do cabeço onde, servindo de referência, existe um marco geodésico.

Localizado no topo Norte de um interflúvio que se eleva entre dois acidentes tectónicos parcialmente aproveitados pelos leitos das ribeiras de Vila Chã (a Oeste) e da Muxagata (a Este), este povoado desfruta de grande domínio sobre a paisagem envolvente, que se estende dos vales das referidas ribeiras até ao sopé da Serra da Estrela, na área de Gouveia.

A escolha do local parece ter obedecido a uma estratégia de inequívocas preocupações defensivas. Na realidade, para além do extenso domínio visual, o povoado aproveita a existência de um Tor granítico no ponto mais elevado do cabeço, tendo os espaços entre os grandes penedos sido preenchidos por troços de muralha, de modo a formarem-se pequenos recintos. Beneficiando, também, de vertentes de acentuado declive, este povoado apresenta-se como um sítio elevado (612m) e bem fortificado, implantado em terrenos particularmente pobres, caracterizados por solos de pouca profundidade e com extensas áreas de afloramento do substrato rochoso.

O seu estudo sistemático, que decorre desde 1988, tendo já sido efectuadas cinco campanhas de trabalho de campo, permitiu a obtenção de uma sequência estratigráfica que possibilita a identificação de duas etapas de ocupação atribuíves ao Calcolítico. Para a primeira, foi já obtida uma datação de radiocarbono que a coloca em meados da 2ª metade do V milénio BP.

Na segunda etapa, foram identificadas uma série de estruturas, duas das quais correspondem a cabanas. Tratam-se de alinhamentos de pedra que, juntamente com os penedos e os afloramentos, delimitam áreas de planta ovalada, ao centro dos quais surgem pequenas estruturas hemi-hexagonais possivelmente para combustão. Os alinhamentos pétreos serviriam de suporte a paredes de ramagens entrelaçadas, não existindo provas de que as mesmas fossem revestidas com argilas.

Será desta fase a construção da grande muralha dupla que delimita o recinto central, que assenta sobre o nível da fase anterior. Contudo, só a continuidade dos trabalhos poderá esclarecer se o povoado foi fortificado desde o inicio, uma vez que falta ainda escavar uma parte substancial do mesmo, nomeadamente outras estruturas amuralhadas.

No material exumado destaca-se a produção cerâmica, composta por recipientes de forma dominantemente aberta, a que correspondem as taças e tigelas, embora as formas esféricas e globulares também estejam bem representadas. A decoração na cerâmica surge em percentagem que ronda os 8%, utilizando preferencialmente a técnica da incisão. Os motivos decorativos são formados à base de espinhas e reticulados, por vezes associados a caneluras, que são um dos motivos mais divulgados no povoado. Surgem ainda com alguma frequência, as representações de triângulos preenchidos, para além de outras menos representativas.

A produção lítica é caracterizada pela reduzida utilização do sílex (que vem de fora), com o consequente recurso a matérias primas locais, como o quartzo leitoso e hialino. Tendo uma produção microlaminar forte, estão presentes as lamelas, geométricos, lâminas retocadas em foice, raspadores, pontas de seta, furadores e uma abundante quantidade de subprodutos de talhe.

De destacar, o reduzido número de elementos de moagem, sugerindo uma actividade agrícola menos importante, o que de certo modo se adequa às características do meio, bem mais propícias para uma economia baseada na pastorícia e onde a caça e a recolecção desempenhariam, ainda, papel de relevo.

Datando do Calcolítico, o Castro de Santiago não forneceu, até ao momento, qualquer prova de que as populações que o habitaram conheciam a metalurgia do cobre ou que disposessem de utensílios em cobre.

De uma maneira geral, o Castro de Santiago parece integrar um fácies calcolítico com grandes afinidades, ao nível da cultura material, com os povoados contemporâneos da Meseta Norte Espanhola (área de Valladolid, Salamanca e Ávila), e ainda com alguns povoados de Trás-os-Montes Oriental, podendo, com estes, corresponder a uma extensão para ocidente do mundo mesetenho.

Quinta das Provilgas

Freguesia: Infias Sítio: Provilgas Coord: 249.15/406.2 GAUSS C.M.P., fl 191, Alt. 635m

Situa-se junto á povoação de Infias, a cerca de 1Km pra SW. O acesso faz-se por um caminho que parte da povoação e que segue pela margem direita da ribeira do Arcal.

Trata-se de um topo aplanado de vertentes suaves entre duas ribeiras onde, após um incêndio em 1991, se recolheu um conjunto de materiais arqueológicos que apontam para uma ocupação pré-histórica e, posteriormente, romana daquele local.

Dos materiais pré-históricos destaque-se alguma cerâmica manual, sendo um fragmento decorado, objectos em pedra polida e instrumentos líticos em quartzo. Estes materiais poderão atestar a existência de um local de povoamento, que à imagem de outros que têm vindo a ser estudados na região, poderá caracterizar-se pela ausência de estruturas defensivas e por uma maior sazonalidade de ocupação.

A Idade do Bronze

A Idade do Bronze (de modo geral, entre o 2º quartel do IV e meados do II milénio B.P.) caracteriza-se globalmente pela afirmação de unidades sociais e políticas, ligadas a um território, com uma organização interna centralizada, onde o poder se concentra numa elite e é perpetuado através da hereditariedade. Esta nova realidade emergente ( com ritmos e graus de complexidade próprios a cada região) traduz-se globalmente na adopção, a par das tradicionais, de novas formas de enterramento e de atitude para com os mortos, novas utencilagens (formas cerâmicas inovadoras e novas técnicas metalúrgicas, com a produção de objectos em cobre arsenical e bronze), desenvolvimento da actividade artístico-simbólica relacionada com a nova organização social, novas estratégias de povoamento, etc.

Contudo, e sobretudo na Metade Norte da Península Ibérica, os vestígios arqueológicos deste período, em especial no que se refere a grande parte do IV milénio B.P., são ainda escassos ou não estão convenientemente estudados. Tal facto tem dificultado a caracterização deste período na região, do qual apenas a fase final é melhor conhecida.

Neste contexto, o concelho de Fornos de Algodres conta conhecidos, no seu património arqueológico, apenas dois vestígios com continuidade das prospecções na região.

A Fraga da Pena

Freguesia: Sobral Pichorro Sítio: Fraga da Pena Coord: 256.850/416.700 GAUSS C.M.P., fl 180, Alt. 749m

Localiza-se no topo da vertente Oeste da ribeira da Muxagata, num pequeno cabeço que tem o topónimo de Fraga da Pena. O acesso faz-se por um caminho de terra batida que passa junto ao marco geodésico do Alto da Serra e que desemboca na estrada de Queiriz a cerca de 1Km para Sul do cruzamento para a povoação de Aveleiras.

Identificada com sítio de interesses arqueológico em 1990, na sequência de prospecções arqueológicas que têm vindo a ser realizadas no concelho de Fornos de Algodres associadas às escavações em curso no Castro de Santiago, a Fraga da Pena localiza-se numa pequena rocha, junto ao topo da vertente ocidental da ribeira da Muxagata, a uma altitude de 749m. Trata-se de um gigantesco TOR granítico, cuja formação terá resultado de um processo de erosão diferencial permitindo a formação da rocha. O local apresenta óptimas condições de domínio visual sobre a paisagem, nomeadamente sobre todo o vale da ribeira da Muxagata até à sua confluência com o Mondego, oferecendo, simultaneamente, excepcionais condições naturais de defesa.

Em 1991 realizou-se uma curta intervenção para limpeza de superfície e levantamento topográfico, efectuando-se em 1992 uma primeira sondagem. Os trabalhos realizados permitiram verificar a existências de uma estrutura pétrea, semi-circular, bastante derrubada, que bloqueia o acesso pela rocha e que poderá corresponder a uma eventual estrutura defensiva (aspecto a confirmar nas próximas intervenções de campo). Os materiais recolhido na sondagem realizada são compostos por cerâmica manual, reduzida percentagem decorativa, raspadeiras em quartzo, artefactos em sílex, machados de pedra polida e alguns elementos de moagem.

Não sendo particularmente rico nem característico do que é conhecido na região, o conjunto artefactual recuperado parece integrar-se num período da Idade do Bronze, hipótese cronológica que se procurará confirmar em futuras intervenções.

Espada do Pinhal do Melos

Freguesia: Fornos de Algodres Sítio: Pinhal dos Melos Coord: 248.125/406 GAUSS C.M.P., fl. 191, Alt. 570m

Está, actualmente, em exposição no Museu do Carmo em Lisboa, pertença da Associação dos Arqueólogos Portugueses. Descoberta em 1953 na sequência de trabalhos de obtenção de pedra para a reparação de um muro, esta espada encontra-se actualmente depositada no Museu do Carmo em Lisboa, pertencendo à Associação dos Arqueólogos Portugueses.

Trata-se de uma espada realizada numa liga de cobre (93,23%) e arsénio (4,51%). Cronologicamente poderá ser integrada numa Idade do Bronze inicial (primeira metade do VI milénio B.P.).

Vestígios Avulso

Para além do que foi descrito, existem alguns outros materiais isolados, recolhidos à superfície, provenientes do concelho: um instrumento de pedra polida recuperado na Quinta do Carvalho, freguesia de Maceira, um machado, igualmente em pedra polida, proveniente dos “campos de Infias” (VASCONCELOS, 1897, p.108) e um outro na Vitureira (CORREIA et al. 1979. Pelas suas características e longa perduração ao longo de toda a pré-história, pouco se poderá dizer sobre estes materiais sem contexto, para além de que se poderão integrar num período que vai do Neolítico ao final da Idade do Bronze.